Caros leitores,
Coisa gostosa é sair por aí, sem rumo, caçando um boteco bom para tomar umas e desfrutar de uma conversa despretensiosa, agradável; coisa aparentemente simples, só que hoje isso está dificílimo! Tornou-se uma arte achar um boteco com um tira-gosto bom, do lado da sombra, bebida honesta e cadeiras na porta para o freguês apreciar o movimento na rua. Agora, raríssimo ficou foi um coligado que além de gostar do bem viver, saiba e aprecie a arte da conversação. Está difícil! E bem, não vou entrar no mérito, não convém, entretanto as pessoas estão socialmente adoecidas; o caso é terminal e sem cura, vai precisar nascer outra geração esta está perdida. Semana passada, entre um miúdo gole e outro, pra puxar conversa, comentei com a garçonete que o dia estava bonito com um sol forte bom para purificar os ares;
—É o aquecimento global! —Irrompeu Pinho Pinga— A terra mudou o eixo por causa das bombas atômicas dos EUA; as queimadas na Amazônia estão destruindo o pulmão do mundo, tudo feito por fazendeiros FDP gigolôs de vacas, blá… blá… , a prova são os rios amazônicos que estão secando (e mostra no celular mil sites que falam disso) nem peixe-boi tem mais, blá… blá…, você não sabe de nada Xela o petróleo da margem equatorial do Amapá vai destruir tudo ( começou a envermelhar e espumar cuspe) blá… blá…, está vendo estas florestas de eucalipto? Também contribui para o aquecimento, ora, plantam onde é cerrado, daí o eucalipto adubado, estragando o solo, cresce muito e fica mais perto do sol (com as mãos ilustrou a explicação), vi isso no Facebook, um professor da Noruega, da Noruega viu (arregalou os olhos e apontou pra mim) explicou tudinho; como é Xela (eu calado estava!) que você vai saber mais que ele? O reflorestamento é uma desgraça, aquece a terra blá… blá… aí fica fazendeiro dando de bom, enquanto a maior causa do aquecimento você sabe qual é? Não sabe! Todo mundo acha que são os carros e não é; é o peido da vaca! Dez mil vacas peidando equivalem à explosão de uma bomba atômica de um quiloton blá… blá… .
Não medi pelo tempo, no bar o tempo para, eu tomei duas garrafas de cerveja e mandei abrir à terceira enquanto ouvia a prosa ruim de Pinho Pinga, que coisa! Não sabe conversar, falta-lhe cortesia. As pessoas estão sapientes de tudo e o objetivo é impor essa sapiência, fruto do egoísmo que nada mais é que um traço da animalidade só atenuado pela civilidade, religiosidade, e educação. Daí materializa-se o final dos tempos que estamos vivendo, onde todos querem somente alugar um ouvido. A tragédia consuma-se no fato da prosa ruim estar não só no boteco, alastrou-se impulsionada pela falta de bom senso; está de amargar. Chegou ao consultório médico e sendo o médico seu amigo a consulta vira terapia para o doutor, o peão sai com a certeza de que está ótimo e com uma receita de duas aspirinas. Outro dia cheguei numa oficina mecânica, o amigo acelerou o carro duas vezes e danou a conversar, falou da guerra da Ucrânia ao signo de capricórnio e eu ouvindo desesperado, cheio de compromissos; enfim o diagnóstico: gasolina adulterada! Também existe a figura do chantagista, muito comum nos semáforos, que chega pedindo um minuto para lhe convencer a comprar uma cocada… nem ouço, nem compro; meu minuto é caro demais.
Com tudo isso e com o saco cheio de tanta prosa ruim, passei a interpelar e dizer que o prosa está prosa e que eu estava ali para conversar um fato, dar um recado, tomar uma informação simples, ou dar conhecimento de algo. Pois assunta bem aconteceu do mundo não cair; as pessoas estão tão confortáveis em seu egoísmo (até para conversar) que preferem se auto-intitularem doentes, do que dar o braço a torcer, ter paciência para ouvir e saudavelmente interagir com o interlocutor, que coisa! Inventam desde crises de ansiedade até necessidade de cafeína ou que esqueceu em casa o bichinho de pelúcia; é de rir! Há poucos dias fui oferecer uma oportunidade de negócio a um cidadão, daí além de não me deixar falar ainda contou tudinho sobre sua nova bicicleta, perdeu a oportunidade; ofereci a outro e fechamos o negócio. Outro fenômeno é a síndrome da palavra chave, falo: “o show do Chiclete com Banana…” pronto! Ouvirei toda a história da banda conforme o peão sabe (e essa é a verdade), suas opiniões, seus gostos, e blá, blá, blá… está impossível até uma conversa simples! Por fim como o mundo está de acabar mesmo, e como ninguém mais tem paciência para exercer a arte da conversação, restaram os monólogos nos Instagrans da vida; loucura total. Depois de postado fica contando os liks e views, achando que conseguiu conversar com alguém; ilusão. O mundo virtual não salva os perdidos.
Xela.

Respostas de 3
Você tem toda razão no mundo onde tigela virou bowl não existe espaço para pessoas normais. A solução que me parece possível é seguir conforme a música “deixa a vida me levar”
Ótima reflexão as pessoas não querem ouvir as outras porque ninguém tá nem ai para os problemas dos outros e se você para pra ouvir a pessoa vai precisar dar sua opinião ou seja uma ajuda seja de tempo, paciência etc. E tempo hoje é uma coisa muito cora
“Boas prosas hão de vir.”…meu avô
costumava dizer . Mas ele não está mais aqui para se decepcionar….ainda bem. O velhinho era bom de de conversar e ótimo “escutador” .
Sempre na varanda da rua do meio,em Itapetinga,e com uma batida de limão (espremido, não batido) ou um Campari,que era de erva boa para o “instomago”.
Ainda bem que ele descansou daqui,deve de estar prosando no céu.
Acho que lá tem prosa boa.
Será que tem cerveja? Brahma?
Enquanto isso ,na segunda feira de carnaval, à tarde,espero você aqui Coronel Xela,para uma gelada e um tantim de assunto.