Caros Leitores,
A sexta-feira santa passou, acabou minha penitência de não tomar o quebra-gelo, e, agora, rapaz, parece que o comandante Marviu gostou da penitência; na madrugada do sábado de aleluia já me enviou um ZAP propondo um novo desafio etílico-filosófico, a saber: “E o que farei de Jesus, chamado Cristo?” {Matheus 27:22} Sei lá comandante! Isso foi o que Pôncio Pilatos perguntou ao povo, o resto da história, todos sabem.
Verdadeiramente tenho vontade de fundar a Academia Universal Etílico-Filosófica de Artes, cujo estatuto teria só dois predicados: ser douto em Artes; e tomar umas (quem diz beber automaticamente será recusado, pois, desconhece a matéria “assuntos aleatórios” imprescindível na formação do Mestre em Artes). Ademais é sentar, apreciar o gole, a vida, falar da vida dos outros, pois da minha não dou conta; e termino por conceber que o maior problema, hoje, é achar o verdadeiro boteco para sediar a academia já que os acadêmicos são boêmios! Assunte, como você imagina o boteco que atrairia Vinícius de Morais? Não! Não tinha luxo, era numa esquina em Ipanema, com uma varanda e grande ângulo para ver a vida viver (dali viu Helô Pinheiro passar); ótima bebida, ótimo bolinho de bacalhau e excelentes garçons; principalmente nunca fechava! Em Salvador a boêmia tomava todas no bar do Oceania, na Barra, em mesas na calçada servidas por excelentes garçons, nunca incomodados por vendedores de quinquilharias, vivendo o doce balanço do mar; curtir a noite em Itapoã virou música, e dormir nuns braços morenos, sonho. Boêmio de primeira linha Erasmo Carlos conta em sua autobiografia Minha Fama de Mau, que pediu no restaurante Gigetto, em São Paulo, um estrogonoffffffe para dois; falou assim para impressionar a namorada nova. Servido o prato, estranhou a cor do molho; experimentou e descobriu o engano, a tonalidade escura do molho era devido à penumbra nas boates onde acostumara a comer estrogonofe. De nascimento na nobre cozinha do palácio de Stroganov, chegado ao Rio de Janeiro nos anos 1950 e apreciado pelos boêmios da Bossa Nova, hoje, este prato é popularescamente servido em Tupperware. E não estou falando de pobreza, estou falando de servir! O serviço é que produz a chiqueza. Neste contexto eu não poderia deixar de expressar, que é preciso gostar da convivência com os boêmios, amar a boêmia para se tornar inesquecível mestre; foi o que aconteceu com Ramón Mosquera Lopes, maître (boêmio e jogador obstinado) da churrascaria Rodeio (Rua Haddock Lobo, São Paulo) e inventor do creme de papaia. Conta J. A. Dias Lopes, em seu livro de crônicas e receitas brasileiras, que para agradar Susy Gheler (artista plástica e cenógrafa) grávida da primeira filha e indisposta com a sobremesa (sorvete de creme), Ramón foi à cozinha e bateu no liquidificador o sorvete de creme, com papaia. Susy provou e aprovou. Nascia o creme da Susy… depois, creme de papaia; era 1975 e hoje é uma sobremesa apreciadíssima.
Tendo eu falado dos bons botecos e meio triste devido ao escasseamento deles, procurei as causas; e achei! Assistindo um Podcast com José Vítor Oliva, dono da lendária boate Gallery, eu o ouvi contar que tudo aquilo foi fruto de um tempo num bom contexto, e que não havia mais “clima” para uma nova Gallery. Já no Instagram, nas excelentes dicas de Fátima Scarpa, ela ensina que não se deve chamar o garçom basta olhar que ele virá servir; legal.
Quanto ao “clima” é fácil de entender, é que o boêmio é exigente principalmente quanto à falta de horário; pode tolerar muita coisa, mas, falar-lhe que tal hora a budega vai fechar é crime imperdoável. A essência está justamente na falta completa de compromisso, aliás, compromisso é algo que pode acontecer no futuro, nunca no passado. Veja só a lógica da mente boêmia que é notar o “belo da criação”, Vinícius de Morais estava completamente à tôa até ver sua musa inspiradora passar; ao passar ele notou e daí teve imediato compromisso com a poesia, escrita em guardanapos de papel e embalada com litros de uísque. Já pensou se o dono do Bar Veloso diz que em uma hora fecharia? Mataria o clima, com isso também mataria a bela canção. Pois é, clima é estar no boteco e bater a empatia por aquela deslumbrante e bronzeada que chega cheirando a pecado; não pede para sentar, tem a cadeira delicadamente puxada pelo garçom. Ninguém se preocupa com a conta, os boêmios têm o deus Pluto; então como marcar horário se o compromisso é conquistar a donzela, custe à elegância que custar? Ou então clima pode ser… Rapaz! Deixa isso para outro dia já que nos falta o básico do básico, ou seja, um bom tira-gosto e um bom garçom!
Bem, exercer a boêmia atualmente só é possível em casa, ou n’algum restaurante que desconheço; é possível que exista. O dia a dia dos cronistas é apreciando o garçom ficar botando a dentadura pra fora e pra dentro enquanto olha o celular; como é destreinado e está trabalhando só pela misericórdia de Deus, quando traz (note: traz, não serve) uma bebida bota lááááá do outro lado da mesa e sai de cara amarrada; pior ainda é quando pergunta se a acompanhante é a filha que estuda fora! Por esta e muitas outras pitorescas historietas eu só frequento botecos com certificado de garantia. Tudo culpa dos que até hoje gritam “CRUCIFICA” em resposta a pergunta de Pôncinho Pilatos.
