O misterioso Cacau
Tendo chegado de Recife em 1975, aos 13 anos de idade, nunca havia visto o cacau,
nem mesmo sabia que o chocolate era produzido de uma fruta.
Em recife o comum era caldo de cana, milho assado, mel de engenho e as frutas nativas
como a pitomba, oiti, jambo, vendidos no meio da rua.
Só se tinha oportunidade de comer maça, uva, morango no caso de adoecimento. Mas,
sobre cacau nunca ouvimos falar, como até hoje poucos baianos sabem o que é
pitomba.
Morando em Salvador comecei a fazer amizades no colégio e no prédio onde morei,
quando conheci jovens que eram filhos de produtores de cacau, todos com fama de
abastados, donos de fazendas, gente com o futuro garantido, assim eram vistos.
Como eu nunca tive muito tino para distinguir um milionário de um pobre, especialmente
convivendo no mesmo ciclo, minhas relações com todos sempre foram de igualdade.
Alguns se tornaram grandes amigos, que enfrentavam as mesmas situações de
adolescentes nos estudos, dúvidas sobre vocação, profissão, engajamento social e
afetivo.
Passado o tempo, vestibulares feitos, profissões iniciadas, vida adulta chegando, a
grande maioria foi se afastando por conta das atividades cotidianas, à medida que o
cacau começou a ser muito conhecido por conta da tal vassoura de bruxa e do declínio
do poderio financeiro dos então coronéis do sul da Bahia.
Aquele futuro garantido que era esperado pelos herdeiros do cacau não era mais o
mesmo. Era necessário esforço, adaptação, busca por novos horizontes produtivos,
mudança de estilo de vida. Para quem nunca fez conta, essa mudança mexeu com o
juízo de muita gente, especialmente aqueles que já não tinham tanto juízo assim.
Meu contato com o interior, em Pernambuco, era com bacia leiteira de Garanhuns, no
agreste pernambucano, onde a maioria dos produtores tinha uma vida de muito esforço
para produzir queijo de coalho e dele criar os filhos, quando muito colocá-los para
estudar em Recife e fazer faculdade.
Não havia qualquer medida de comparação entre os produtores de leite ou mesmo dos
engenhos de Pernambuco com os produtores de cacau do sul da Bahia, sempre com
carros do ano, bons apartamentos, roupas de marca, dinheiro no bolso e a garantia de
um produto que nunca entrava em baixa.
Hoje já vemos o sul da Bahia, os filhos do cacau, se reerguendo em outras atividades,
além da produção de cacau, com esforço, criatividade, suor e lágrimas, honrando os
tempos daqueles que iniciaram essa saga. Que continuem valorizando o esforço dos
pioneiros, a superação da triste praga, a chegada das novas culturas e atividades, pois
essa será a melhor herança a ser deixada para toda a nova geração homens e mulheres
do cacau.
Cledson Sady
Membro da Academia Jacobinense de Letras Maio/2026

Uma resposta
Excelente texto que retratou a história do cacau nos tempos bons.