Caros leitores,
Naquele tempo do primeiro lustro1 dos anos 1980 um fato quase passou despercebido; fato grave e indicativo do que viria a acontecer. A associação (ou clube) dos engenheiros agrônomos da CEPLAC, então controlada pelos agrônomos ligados aos cacauicultores, foi tomada pelos “agrônomos” rancorosos. Foi uma eleição disputada e, contou com a ativa participação do cérebro dos mulas (eu o bem conheci!) assim a luz da candeia foi apagada. Daí outro fato também quase despercebido aconteceu, a seleção de funcionários da inchada folha da CEPLAC foi afrouxada, então, a carreta furacão (naquele tempo era trem da alegria) finalmente perpassou os portões da CEPLAC sob o olhar fixo de José Haroldo esculpido num busto em jacarandá, bem na sala de imprensa. A política tinha virado, será que quebrariam a lamparina da cacauicultura? Dos escaninhos da cultura ceplaqueana saíam agora espetaculosas notícias sobre o fabuloso fundo de previdência dos funcionários, o CEPLUS; mais fantasiosos planos de carreira e auxílios inimagináveis; o cacauicultor assistia com um misto de incompreensão, basbaquice e resignação. Uma festa de arromba foi dada pelo cérebro dos mulas no Ilhéus Praia hotel e às vinte horas as champagnes (legitimas!) pocaram, anunciando sua triunfante presença; eu ví, eu estava lá.
Ewertom Almeida fazia uma viagem a Abidjã (Costa do Marfim), onde representou a cacauicultura brasileira em missão oficial do ministério das Relações Exteriores; era o presidente do Conselho Consultivo dos Produtores de Cacau, discutiu os termos do acordo internacional do cacau. Ao chegar, irmã Corina (uma belga com forte sotaque alemão) presenteou-lhe com uma medalhinha milagrosa; e um artigo publicado num jornal regional (li este artigo) que versava sobre a importância na melhoria da precária situação do trabalhador rural, e do seu interesse, solidariedade e coragem de tratar sobre tal assunto na reunião plenária do CCPC; irmã Corina muito agradeceu e elogiou Ewertom. Parafraseando Papa Paulo VI, a fumaça de satanás entrou pelas frestas do finamente decorado prédio do CCPC; o conselho consultivo estava ferido de morte! Mas demoraria, Ewertom não fez o sucessor, o lendário Írio Athanásio (lembram! Morava perto do antigo fórum) manobrou e elegeu mais um presidente; ele era mestre e fazia dobradinha com Gustercindo, virtuosa dobradinha. Daí a CEPLAC foi federalizada e n’algum momento parou de repassar o quinhão do então CNPC, mas, por conveniência manteve os funcionários lotados, afinal, não precisariam pegar o ônibus para ir trabalhar (ônibus da CEPLAC); a carreta furacão estava a todo vapor. O Conselho Nacional dos Produtores de Cacau definharia até sua candeia apagar-se. Entretanto…
Está no mais filosófico dos livros, a Bíblia. O brilho da luz; a candeia do corpo, os olhos; a transparência da luz que faz que tudo que seja secreto, seja descoberto; a luz dos dons espirituais deve ser compartilhada para beneficiar e guiar os outros… que coisa bela! Pura philosofia. Bem, enquanto a luz da pesquisa no CEPEC era extinta, outra luz chegou aos meus olhos por um livrinho escrito pelo cacauicultor, agrônomo e político Carlos Baiardi, que falava sobre cacaueiros a pleno sol e, na capa, tinha uma foto em que restava, como sombreamento, só uma jaqueira; ou melhor, o “melhor restaurante da fazenda” (alcunha dada pelos peões). Senti-me feliz a cacauicultura tinha futuro, nem tudo era desilusão; enquanto a candeia da CEPLAC fraquejava, outra mais forte acendia… e como as ilusões dão sentido a vida, naquele dezembro 1984 a revista Playboy trazia uma entrevista com o Barão Vermelho (banda de rock) e a deslumbrante Luiza Brunet; mulher em forma de arte. A vida estava boa e bela.
A ordem para a execução da operação cruzeiro do sul foi dada; agora assunta: como um grupelho de conhecidos descrentes, sem religiosidade definida, escolheu este nome tão católico? O cérebro dos mulas começa a aparecer, é um cachorro escondido com o rabo de fora, por este motivo o diabo tem tanto medo de crianças! As ilusões mal compreendidas são um problemão, o cérebro dos mulas teve a ilusão de acabar com a cacauicultura e sua rica e complexa sociedade, morreu na ilusão; só conseguiu matar as instituições; a sociedade e a cacauicultura sobreviveu e venceu. Tudo graças à imensa luz irradiante de homens que precisam ser homenageados, como Carlos Baiardi, pois, quando nada mais restou, quando os queixos duros da CEPLAC jogaram a toalha e queimaram possíveis bancos genéticos, do nada, surgiu o cara visionário do livrinho que falava de cacau a pleno sol, dizendo e mostrando resultados concretos de que bastava clonar o cacaueiro, adubar, corrigir, conviver, controlar custos, aumentar a produtividade, modernizar o maquinário, diminuir a mão de obra, combater pragas, criar novíssimas tecnologias; e também aceitar que a tecnologia então recomendada pela CEPLAC estava desatualizada; piorando as coisas a instituição confessou que não tinha pesquisa para com a vassoura-de-bruxa. A luz do conhecimento produzido por Baiardi irradiou e logo os cacauicultores estavam procurando cacaueiros resistentes para clonar; conseguiram!
E enfim chegou o tempo de reconhecer a luz de quem iluminou; de louvar os heróis; de reconhecer a abnegação dos que doaram a mais cara pesquisa de suas vidas, os clones resistentes. Tudo isso é fruto da rica e complexa sociedade criada na sombra dos cacaueiros, a mesma que agora vê que é possível colher, com tecnologia e drones duzentas arrobas de cacau por hectare. Reconhecer que toda essa tecnologia veio do trabalho de muitíssimos cacauicultores, como um trabalho de formiguinha, de um aprendendo com o outro; heróis da resistência acreditando no livro do Gênesis 3 E disse Deus: Haja luz. E houve luz. 4 E viu Deus que era boa a luz; e fez Deus separação entre luz e as trevas. 1 No princípio, criou Deus os céus e a terra. A candeia da CEPLAC apagou; a lamparina da cacauicultura não! Os rancorosos preferem as trevas…
Coronel Xela.
1- Espaço de tempo de cinco anos.

Uma resposta
PARABÉNS PELA HISTÓRIA REAL. VIVENCIEI UM POUCO DESSA HISTÓRIA. FIZ PARTE DESSA CAMINHADA.
AH , SE A CEPLAC REVIVESSE NOVAMENTE PARA ENRIQUECER A NOSSA REGIÃO!