Caros leitores,
É claro que eu fiquei assustado! Quem e como não ficaria? Kasparov era o maior enxadrista e o xadrez era (e é!) considerado um desafio intelectual top; nada está além dele. Daí o mega computador “Dep Blue” venceu Kasparov; e o mundo aplaudindo, que horror, e anunciando que o Homo Sapiens estava com os dias contados; que o futuro seria como no filme “Blade Runner”. Era o início da I.A. e ninguém sabia o caminho, mas, o programa que venceu Kasparov hoje está nos joguinhos e qualquer criança saudável vence! Qual a lição? Não podemos comparar I.A. com nada do passado e TEMOS de aceitar que a mente humana é plástica e infinita.
Estava eu zapeando despreocupadamente quando descobri que a profissão de cronista não desaparecerá, será uma das poucas que a I.A. poupará. Com espanto descobri que a profissão de jornalista será tragada; duvidei, sentei, chupei uma laranja, rodei a paciência, outra laranja, sabiam que quando começo chupo mais de uma dúzia! Deletei meu juízo e conversando com meu rico cachorro, branco, esperei a resposta; quando vi que ela não viria delicadamente, refleti: entonce o que um cronista pode ensinar a um jornalista? E aí está a chave nem a I.A. responde corretamente o que é uma crônica, falta felling. NOTE é o mesmo que traduzir felling a I.A. não consegue, ela “plasma” a resposta. Para não desviar do assunto não vou falar da essência de ser cronista, entretanto, o cronista não pode ser “enrolão”, nem “enchedor de salsicha”, pois, a crônica é uma conversa ao pé da orelha… ou o escritor consegue e é recompensado com o prazer do leitor em “ouvir” sua crônica; ou não consegue e assim vira contista. Não existe cronista mediano pois, o leitor é exigente. Só! E olha só outra faceta é não ter vergonha de deixar, conscientemente, sua impressão digital no texto; Lembra do Unabomber, o cara que enviava cartas e bombas pelo Correios, e que matou pessoas por muitos anos nos EUA. Ele só foi pegado porque um policial resolveu estudar suas cartas, aí achou um padrão de personalidade, de palavras, de gírias, até do clima; e assim criou uma nova profissão que hoje tem o nome de “cellebrite Reader”. Todo ser é único.
O Brasil é fértil em cronistas excelentes, e ao ler é possível a qualquer um identificar, só pela escrita, o autor; isso é típico da crônica. João Ubaldo Ribeiro, meu cronista preferido é reconhecido já na primeira linha. Rubem Braga foi meu companheiro por todo o ensino médio, Terezão (minha professora de português) usava ele quotidianamente em tudo, desde interpretação de texto à impostação da voz. Fernando Sabino eu li por prazer, por gostar. Este agora é pra matar de raiva os rancorosos, o elegante Ibrahim Sued e sua deliciosa (dificílima de ser escrita) crônica em forma de coluna social; neste contexto cito também July (Jornal A Tarde), não perdia uma! É impossível ler July e achar que é Ibrahim. Eu adoro coluna social, é de fato uma crônica pronta; e interessante, o colunismo definhou. Dizem mil motivos, creditam a mil fatores; a lenda de que as mulheres canhoteiras não dão coluna deixou de ser lenda, é a única verdadeira; mas, meu pitaco é de que falta mesmo é o jornalista social, educado, adestrado, culto, bom garfo, bom copo, boa prosa e sobretudo bom vivant, esta figura ainda não apareceu neste mundo instagramável; uma pena pois, a vida precisa de gente que saiba viver e gente para contar como viveram. Caro (meu rico cachorro) branco, como estão as gentes?
Estava esquecendo de Nelson Rodrigues, o cronista dos canalhas, das putas; que escrevia com um cigarro nos dedos e descortinava todas as hipocrisias. Quem não ria, odiava; assim pelo ódio ou riso todos o adoravam. Virou lenda. E lenda mesmo, entre tantos, foi (Quem??) Honoré de Balzac que eu classifico seus escritos como uma “crônica de grande fôlego”. Ele se classificava como um operário das letras; reconhecia o trabalho intenso que é a arte de criar e escrever; de não existir arte sem muito, muito trabalho. Em Ilusões Perdidas Balzac escreve “O jornalismo é um inferno, um abismo de iniquidades, mentiras, traições, que não se pode atravessar e de onde não se pode sair puro, senão protegido, como Dante, pelos louros divinos de Virgílio”… bem, eis o conselho do cronista! A vida é real e se impõe, mesmo que o jornalista queira contar de outra forma…
O “defeito” da I.A. é que ela pega pela média de tudo que foi escrito; o problema é que toda média é burra. As mudanças acontecem com uma idéia; uma pessoa, um fato, uma ação, nunca pela média. A individualidade é um dom divino e são os fragmentos bons da individualidade de todos que formam a sociedade. A má notícia é que eu não preciso desenvolver uma teoria para falar disso, bastou-me lembrar de um cronista supimpa, o cronista-Mor, o autor de cabeceira, o cara que não conhecia a I.A., ele mesmo Machado de Assis! Quem conhecia tudo da alma e das desgraças humanas e, falando delas, deixou esmiuçado o que aconteceria quando a I.A. aparecesse. Bota o caroço do olho no livro Papéis Avulsos publicado em 1882 e segura o queixo senão cai. Com sua pena geniosa ele faz um manual de como ter uma vida “na média”, basta: não ter opinião; repetir ideias prontas; falar o que os outros falam; e falar muito e não dizer nada. Pronto! Não precisa ser autor de nada, é suficiente escrever para não incomodar.
Caros (note como estes “caros” nos aproximam) a I.A. vai tomar o lugar de muitos em todas as profissões, incluindo o jornalismo; entretanto os melhores ficarão e formarão uma nova geração adaptada a usar a I.A como auxiliar e não como criadora. A tendência é termos um jornalismo mais culto, bem escrito, bem feito, com recursos, e não será a I.A. que fará isso, será gente. Como a crônica que é feita por gente.
Alex.

Uma resposta
Texto muito bem escrito.