Caros leitores,
Sempre no dia de finados fico divagando como e pra quê a humanidade inventou o culto aos mortos; ora, não morreu!? Morreu acabou! Com todos os animais é assim, daí o homem dá de cultuar os mortos… piorando a situação, hoje, já desvirtuaram tanto o conceito do culto ao sepultamento que existem pessoas que não mais compreendem pra que serve este culto; aliás a maioria. É uma pena pois o Brasil é uma nação cristã, neste contexto tem uma riquíssima tradição que só existe nesta terra; outras tantas particularidades só foram observadas e testemunhadas aqui, e assim surgiu a brasilidade. Olha só que preciosidade única, os padres Jesuítas quando aqui chegaram encontraram os silvícolas brasileiros vivendo na idade da pedra polida; em nenhum outro lugar do mundo existia tal situação, todos os povos em todos os lugares já estavam, quando nada, na idade dos metais. Pois bem, os jesuítas viram e anotaram o ritual de sepultamento, que consistia em abrir uma cova próxima ao barracão onde muitas famílias viviam; como não tinham roupas eram enterrados nus. Em cima da cova era botado os seus utensílios pessoais, seu arco e flexas e suas caçarolas (acreditavam que podia sentir fome e precisaria cozinhar); agora outra preciosidade: a sua rede em que dormia era lavada (sim, lavada!) e cuidadosamente deixada também em cima da cova. O porquê da rede ser lavada ainda é um mistério. Expressavam grande tristeza e choravam por um longuíssimo tempo.
Os padres Jesuítas eram detalhistas em suas anotações e assim escreveram sobre o dia posterior ao enterro: que o chefe da tribo acordava antes do sol nascer, primeiro que todos e, deitado na rede, contava as bravuras do falecido; suas caçadas; sua pontaria; suas conquistas. Depois falava de todos os antepassados e de como sua tribo começou; das guerras; da fartura; das dificuldades e de como superaram e venceram. Acabada esta parte falava do trabalho; de como plantar e colher; da importância de caçar; de ensinar as crianças a acender o fogo, a caçar e ser guerreiro. Falava e só ele falava até o dia amanhecer, no outro dia repetia tudo; sempre; pra sempre. Todos que ali moravam ouviam; ao amanhecer saiam para seus afazeres. Quando terminei de ler o relato do padre Jesuíta fiquei impressionadíssimo, simplesmente não há nenhum ritual de oferta ou encaminhamento do finado a um Deus! Os silvícolas temiam um Deus e davam nome “Tupã”, entretanto ainda não tinham nenhum traço de religião; também desconheciam o espírito; não deixavam na cova nenhuma flor, nenhum alimento, nenhuma oferta; então pra quê o ritual do sepultamento!?
É intrigante… muito intrigante! Difícil de conceber, mas mesmo desconhecendo o espírito, os silvícolas, através da contação da história, queriam preservar (louvar ainda não) a memória, os bons atos, as invenções e isso cabia ao chefe da tribo. É como se eles tivessem medo de perder o conhecimento, ou, um pouco mais complexo, é como se Deus tivesse colocado em nosso instinto um: conte suas histórias e a história vos salvará. Rapaz!! Será que tem isso escrito na bíblia? Bem, depois de ler e reler os escritos do padre Jesuíta; depois de muitos dias matutando as possibilidades; depois de espairecer as idéias com algumas geladíssimas no boteco de minha comadre Chunda; não tive como chegar a outra conclusão senão a de que a história nasceu antes da religião e que isso foi provado aqui no Brasil, na Bahia, no o convívio dos padres Jesuítas com os silvícolas. Vou mais longe, a humanidade contando suas histórias aprendeu a escrever e escrevendo ouviu Deus ditar a bíblia.
Considerando toda a natureza e suas leis, todo o trabalho prático e científico para que serve a história? Para nada! A história é uma arte só humana e só serve para a humanidade. Assunta: o que muda no mundo um tsunami acontecido no Japão? Nada. Entretanto essa história contada pela humanidade, cria, do outro lado do mundo, no Brasil, a palavra tsunami que até os anos 1990 era desconhecida aqui. Criada pelo homem para servi-lo, a história evoluiu para a religião e neste contexto, assim como eu, Marc Bloch, fundador da escola dos Annales (revista dos Annales), judeu, morto pelo pelotão de fuzilamento na França no final da segunda guerra, concorda e afirma que o cristianismo é uma religião de historiadores; não é preciso dizer mais…
Os padres notaram e anotaram e assim não deixaram perder essa importante passagem civilizatória, que, a partir daí toma conceitos cristãos. Após o batismo os silvícolas são convidados a enterrar seus mortos junto a igreja; e não mais ficariam na terra precisando de coisas materiais, morariam no céu. Por livre e espontânea vontade conheceriam a face de Deus. Quanto a história contada pelo chefe da tribo, os chefes, puderam continuar contando, só que agora enriquecidas pelo fato de a glória dos espíritos pertencer a Deus. E assim convido meus caros leitores a uma profunda reflexão sobre a história deixada por nossos queridos próximos; toda história tem ensinamentos e toda pessoa tem um espírito; e é do espírito que se extrai a história.
Alex Terra.

Respostas de 2
Alex, uma reflexão interessante sobre a importância da história na preservação da memória, dos conhecimentos e dos valores humanos. A relação que você estabelece entre tradição oral, espiritualidade e religião é instigante, especialmente a ideia de que contar histórias é uma forma de perpetuar a existência humana. Embora algumas interpretações históricas mereçam aprofundamento, o texto nos convida a refletir sobre o valor das experiências e dos ensinamentos deixados por nossos antepassados.
Paulo Sertório
“Morrer deve ser tão frio, como na hora do parto” (Gilberto Gil).