História da Educação na Idade Média. (Resenha do livro)
Para mim foi o livro das surpresas! Claro que eu tinha algum conhecimento, li Santo Agostinho, São Thomás de Aquino e mais uns achados aqui e muitos outros ali, mas, tudo desconexo e por mais que eu tentasse, não conseguia achar a VERDADE.
Não é um livro fácil, não recomendo para iniciantes; é preciso familiaridade com palavras, conceitos e modo de viver próprio da idade média. Note: até o autor tropeçou, Rui Afonso da Costa Nunes usa a palavra fábula1 no sentido de invencionices, querendo contextualizar crendices atribuídas à idade média. Outra dificuldade são as notas de rodapé, quase todas são em latim. Outro deslize acontece na página 230, quando diz que os nobres não pagavam impostos e taxas; errou feio, pois, os nobres pagavam o imposto de sangue! Ainda sobre o autor, lá pelas tantas, ele afirma que os leitores serão adolescentes (até 28 anos); eu lí na velhice (após 56 anos)… , fora estes deslizes o autor é ótimo e entrega o que promete, desfazendo os falsos saberes maldosamente ensinados por professores preconceituosos e incapazes.
Minha primeira surpresa foi conhecer os motivos do latim, diferentemente dos idiomas de outros impérios, ter resistido ao fim da civilização do império romano. Só por isso já vale a leitura do livro! Delicadamente o autor versa sobre o modo da educação infantil totalmente inclusiva, com filhos de vassalos, senhores, burgueses todos sob o mesmo teto e recebendo o mesmo ensinamento. Interessantíssimo é saber que com o fim do império, populariza-se o CODEX2 em substituição ao VOLUMEN3; devido, principalmente, a falência da indústria dos copistas existente em Roma, daí esta atividade passa a ser feita, paulatinamente, nos mosteiros. Ficar sabendo que Santa Escolástica (Ordem Beneditina), no século VI fundou escolas femininas é de cair o queixo; mais ainda é descobrir que em 843 foi escrito por Dhuoda, um livro com regras, conselhos, e modo de comportamento para seu filho que foi estudar num mosteiro; anos após foi publicado com o título de Manual de Dhuoda. Infelizmente não achei esta publicação em português (tem até em japonês!) Pois é, um livro escrito por uma mulher há 1.182 anos! (estamos em 2.025)
Como não tenho a intenção de contar o livro, somente estou despertando a curiosidade para que o interessado no assunto explore e surpreenda-se, como eu me surpreendi, com as descobertas contidas neste livro; e então até a concepção que eu tinha da palavra universidade foi desfeita! Tudo deriva de privilégios, o Papa de então publicou uma bula em que dava aos professores o direito de ensinar em qualquer faculdade no universo cristão, ou seja, eles ganharam a universalidade para ensinar em qualquer lugar. Olha só minha surpresa eu pensava que universidade fosse por causa da universidade do ensinamento, não é; tanto na universidade como na escolástica as matérias são: gramática, dialética, retórica, geometria, aritmética, astronomia, e música. Agora assunta bem, após o surgimento das corporações de ofício, no século XII surgem às escolas das corporações cujo objetivo era técnico; daí, neste embalo surge às corporações de estudantes e professores no século XIII; portanto uma criação original da idade média nunca antes imaginada em cultura nenhuma, que juntou a universidade de todo professor poder lecionar onde quisesse; com a outorga de privilégios dada por Frederico Barba Roxa aos estudantes e professores de Bolonha; esse contexto termina por concluir a obra de fazimento da universidade. Pronto, eis a universidade! Entretanto, nova surpresa, foi o padre Graciano quem separou o direito canônico do direito civil romano, dando início à faculdade de Direito. Ainda no século XIII em Salermo organiza-se a faculdade de Medicina. A universidade permitiu a separação das faculdades.
Por fim Ruy Afonso da costa Nunes narra os motivos da decadência da universidade, unicamente decorrente dos privilégios. E de como estes privilégios deu surgimento aos goliardos, que viviam como podiam e queriam. Eles eram estudantes a vida (sempre curta, tolhida pelos excessos) toda, cantavam e jogavam em bodegas, faziam literatura profana, assinavam poesias eróticas com pseudônimos, bebiam muito e tinham muitas mulheres; muitos goliardos eram monges que haviam botado a regra do mosteiro de lado. Enfim o lema de vida deles era: é meu propósito morrer na taberna. Por volta do século XV a universidade é agregada ao estado crescentemente centralizador; entretanto o modelo criado na idade média persiste até hoje, deu frutos fartos e bons, difundiu-se no mundo inteiro gerando muitos benefícios sociais.
Recomendo a leitura do livro, é essencial. Faz-nos compreender até o porquê que teve uma geração de poetas (os desavisados) que queriam morrer (muitos morreram) de tuberculose; que coisa!
Alex Terra.
1- Estilo literário em que os animais falam.
2- É o modelo de livro encadernado como conhecemos hoje, com páginas.
3- É o livro com o papiro ou pergaminho longo e enrolado; da forma como comumente vemos em filmes que tratam do império romano.
