Não é sobre filmes é sobre o cinema! Toda a poderosa magia proporcionada pelo cinema; este teatro moderno e sim, necessário, que conheci e aprecio; que contextualizei em minha vida como uma diversão rica, abundante, divertida, e socialmente perfeita; gosto! Fez parte de minha formação intelectual e física, principalmente sintetizou em meu inconsciente os princípios de imaginário e realidade. Tentei inúmeras vezes fazer meu carrinho de plástico voar como o carro de 007 voava; andava na fazenda procurando os cipós do Tarzan, até que compreendi que ou era muita sorte ou alguém, no filme, botava os cipós no lugar certinho; e assim descobri a significação de “culhuda retada”. A música! O escuro sem ter medo do escuro! Os cheiros! Era domingo! Quem sabe este é o motivo oculto de eu reservar o domingo para publicar!
As incompreensões, revoltas sociais, também ali eu aprendi a resolver, veja só, quando a fita quebrava todos gritavam “meu dinhêêro”; os garotos assoviavam estridentemente; outros batiam os assentos das cadeiras… não sou santo e também fiz, mas um dia compreendi que sempre emendavam a fita; que sempre o filme voltava, então para quê aquilo tudo; bastava esperar um pouco! Assim, sem estar fazendo o que a multidão faz, observei que o filme nunca voltava na cena certa, sempre cortavam um pedaço. Como fui uma criança extremamente irrequieta, passei a não falar de outra coisa e a questionar todo mundo sobre o corte no filme, até! o dono do Cine Semíramis, em Canavieiras, “seo Nilo”, me chamar e me levar na cabine de projeção de filmes, rapaz, não sei como não morri de emoção quando vi aquela fantástica máquina de sonhos; eram duas! Enormes! Com dois rolos de filme enormes; daí explicou:
–O filme é um longa metragem, são dois quilômetros de fita, quando acontece de quebrar cortamos um pedacinho para acertar e colamos com “durex”; a fita quebra devido ao calor da lâmpada. Falava com paciência, deixou-me aproximar a mão da luz, e emendou uma fita para exemplificar; pegou o pedacinho cortado e botou em minha mão, perguntando:
–Esse pedacinho aí tirado de dois quilômetros, faz falta? Sorri um enorme sorriso franco.
Daquele dia ficou um enorme questionamento que eu só conseguiria resolver na adolescência: as complicadas leis da óptica. Fui uma criança encafifada com esse bicho-papão, a fita do filme era projetada de cabeça pra baixo! Lascou! Daí, de jeito nenhum eu conseguia ver um filme, sem olhar para o facho de luz e imaginar como! Com que diabo! A imagem ia passando ali e revirando de bunda pra cima para a posição certa. É coisa! Se existisse naquele tempo trauma infantil, eu tinha ficado com um; como não existia, o que fez foi aguçar minha curiosidade e deixar uma bela recordação para o Coronelzinho Xela contar.
Continuando nas belas recordações, também tinham os encantos da “porta do cinema”. Os maravilhosos picolés, verdadeiro suco de fruta no palito, da sorveteria Triumph, que eu não podia chupar sob pena de melar a roupa; esta opção estava descartada, mas, a enorme bomboniere era um sonho! Nunca me esqueço dos cigarros de chocolate que nunca comprei; sempre escolhia, escolhia, escolhia, perguntava os preços, e com meus “dez centavos amarrado de corda”, fazia as ponderações (um chiclete Ping Pong custava cinco centavos), e sempre, invariavelmente, sem titubear, comprava dez chicletes de um centavinho (era um compridinho, fininho, que nem açúcar tinha); ora, ora, era chiclete pra mascar o filme todo… se algum amigo pedisse um eu só perdia um centavo! Fazer o quê! Além de irrequieto era pão-duro. As “deliciosas pipocas Lírio do Vale” (era assim que estava escrito no carrinho!), era feita na hora com manteiga de verdade e muito sal; o costume era comprar um saquinho e dividir, cada um fazia uma cocha com a mão para ganhar um pouco; era legal. Não lembro claramente se o pipoqueiro da Lírio do Vale era “seo Pifani” (certamente seu nome era Epifânio); outra particularidade era o nome, e só, há pouco tempo, consegui associar a significação; velho que susto! A flor lírio do vale parece pipoca! E remete a delicadeza. Onde esse pipoqueiro foi achar esse nome! Devia ser culto, ler a bíblia. Tudo era diversão, tudo era novidade, era domingo à tarde e o filme só começava quando escurecia; abria a bilheteria; todos corriam para a pequena fila. Depois que eu comprava o ingresso contava às moedas restantes, aí meu velho, quando sobrava o bastante, só coragem; de menino só eu encarava comprar tal iguaria, nunca esquecerei; como esquecer, comia um saborosíssimo pastel! Bem, que eu sei mesmo, outras crianças que enfrentaram a parada adoeceram de caganeira, nunca senti nada! Era um tabuleirozinho e lembro-me do rapaz, não me lembro do nome; era pastel de mortadela, talvez uma dúzia de pedacinhos presos na lateral da massa; com um toque de excentricidade eu acrescentava molho de pimenta; às vezes dava soluço; outras vezes passava metade do filme chorando; nunca deixei de botar pimenta. Naquele outono eu estava próximo a fazer oito anos.
Músicas inesquecíveis como do filme “O Dólar Furado”, ou “O Bom, O mau, e o Feio”, ou “Era Uma Vez no Oeste” ficaram nas boas recordações; cenas inesquecíveis; aprendi a apreciar a fotografia, a luz do enquadramento, me encantei com filmagens do horizonte com cavalos correndo em disparada. E mais que tudo isso, gritei xô, xôôô, para o condor da CONDOR FILMES voar! Nós gritávamos e ele voava! Diversão pura dentro da magia do cinema no domingo!
Coronelzinho Xela.

Respostas de 4
Assíduo frequentador foi Pedro Ivanoff Popoff búlgaro de nascimento, aprendeu por lá a destilar ⛽️ na década de 30 emigrou p Argentina e de lá para Uruguaiana e junto com um engenheiro Polinésia montaram a “primeira”destilaria de petróleo bras chamada Ipiranga dos bascos :
Ormazabal e Tellechea…
Habitava por lá um russo de nome esquecido, ele é o Pedro iam ao cinema durante anos juntos ,todos os dias poderia repetir o filme durante dias seguidos e sempre !
Conheci e trabalhamos juntos eu e o Pedro ,ele ja maduro,personagem inesquecivel e admirável..
O cinema nos arremetia a aventuras como os piratas,super homem, Flash Gordon. Tanzânia, Tom Mix, e na adolescência Libertd Lamarque, Errol Flint, faroestes, Dracula Bela Lugosi, Vincent Price ,Peter Cushing depois Brigitte Bardot , Marcello Mastroiani, e o primeiro filme picante…
Foi bom de boca cheia como se diz aca…vivi e amei o cinema , experiência fascinante
Amigo Coronel Xela, você nesse momento mágico me fez ir pra matinê no cine Marabá, lá troquei gibis do fantasma, do Mandrake do Bolinha, da Luluzinha, do Mickey, do pato Donald, do Huguinho do Zezinho do Luizinho, do Tio Patinhas, do Zé Carioca, depois fui ao cine Itabuna assistir ao dólar furado, com Juliano Gema , depois fui ao cine Catalunha onde vi Brigitte Bardot do rio em baixo da ponte toda linda depois vi Tarzan no cine Itabuna voando na floresta através dos cipos a assim também bem me agarrei a alguns cipós nas matas da minha floresta negra, imitando meu ídolo, exercitando a minha felicidade de uma infância gostosa, maravilhosa … obrigado por essa linda viagem ao nosso belo passado!
Boas recordações: Em 1975 o lançamento do filme Aeroporto, depois Tubarão, em 1977 o Exorcista , infelizmente na década de 1980 o maravilhoso cinema fechou
Restaram boas lembranças
Como emocionei com a leitura de hoje, voltei na minha adolescência ,o cinema era a nossa diversão ir a matinê era o domingo perfeito!A pipoca que saudade,tinha um sabor especial e você falando do “Lírio do Vale” ,como também eu sempre comparei é muito verdadeiro!Parabéns Xela!Admiro muito você!