Caros leitores,
Neste estranho final de ano encontrei um amigo bebericando um novo drink, o campareto1, muito feliz e satisfeito. Boa prosa, bonachão, elegante e principalmente: nunca trabalhou! Pegou-me pelo braço para mostrar-me sua nova invenção, um bar completo montado no porta-malas do carro; tem até picador de gelo elétrico. Daí me falou baixinho que o tempo de tomar drink ruim tinha acabado. Brindamos a vida e a compra de mais um piano em Itabuna, talvez o último. Tonho Enrolado é um conhecidíssimo negociante de antiguidades, e a derrocada da cacauicultura lustrou sua fortuna, afinal, os cacauicultores gostavam de coisas boas.
A vida vai sendo vivida, os mangados também vévem, os que não sabem que tem vida não vivem (mas, dão trabalho) e eu pensando no caminho da civilização que gastava com relógios Patek Philippe e hoje gasta com cachaça Corote… bem; naquele finalzinho de agosto de 1989 eu bebericava num barzinho na praça em Santa Luzia; um grupelho de jovens herdeiros conversando sobre nossos futuros e quantos cacaueiros cada um queria ter; era a nova geração chegando. Bebendo no balcão outro grupo de cacauicultores maduros reclamavam dos preços; da vassoura-de-bruxa ainda se falava pouco.
—Com o dinheiro de um whisky eu tomo dois Hi Fi2 . —Disse um jovem.
— Gostei dessa e estou nessa! —Concordou outro jovem; e emendou. —E essa birita para mim não dá! Vou voltar para Salvador; vou estudar para concurso. Com a nova constituição vai ter muito concurso, muito cargo bom. Isso aqui não dá, vai afundar! (foi embora, nunca mais tive notícias).
Foram palavras proféticas, o boteco fechou e o prédio foi à praça (por dívidas da cacauicultura). Já na praça da feira a feira melhorava como nunca, tinha de tudo com fartura; os sulanqueiros3 garantiam o bem vestir; o capixaba da verdura chegava toda quarta-feira; vacas gordas chegavam de Jordânia; a carcaça de galinha proporcionou a fortuna a uma pequena rede de mercados; miúdos comerciantes sentiram o bolso estufar; o instalador de antena parabólica não dava conta dos pedidos; a manicure, radiante por atender as socialites e saber das fofocas “de fora”, estava mais corada e vivaz; o decadente rock nacional tocava Adelaide (Inimigos do Rei), e seu horroroso clip; as toscas oficinas mecânicas lotaram de carros semi-novos para pequenos reparos, e até revisões preventivas; a empresa de ônibus Expresso Brasileiro começava a linha Santa Luzia – Una; o padre na missa pedia aplausos para o povo de Deus que invadia terras; a prefeitura começava a obra de um boteco (depois cedido a um apadrinhado) no meio da praça; o tempo seco passou, passou, a primavera chegou seca. A safra de cacau estava comprometida.
Uma profunda transformação econômica estava acontecendo, e para a maioria das pessoas era impossível não gostar; os cacauicultores estavam gastando somente com as trivialidades do dia a dia ou, para manterem-se vivos. Tendo cacauicultores vendendo, apareceu Tonho Enrolado comprando! Viu de tudo, comprou de tudo! Certa feita voltou com uma bolsa cheia de jóias e relógios; outra vez e este é seu caso ainda mais pitoresco, inclusive ficou impressionado com a quantidade, comprou as jóias (presentes dos cacauicultores) de uma rapariga que estava de mudança para Porto Seguro, ia ariscar a sorte lá; ou seja, botou o dinheiro para rodar. Então o paradoxo do inverossímil instalou-se; para o peão ou a pessoa comum como crer que havia uma crise monumental, se a boate Cabana (onde a noite acontecia em Santa Luzia) estava lotada e vendendo como nunca; se as esmolas dadas na missa estavam cada vez mais fartas; se a sorveteria estava vendendo o quíntuplo de picolés (enquanto isso a Kibom recolhia seus freezers); se o magarefe não mais tomava água, só cerveja; se os miúdos comerciantes, neste novo contexto, participavam das festas dos fazendeiros; até bujão de gás! Na safra com os veículos irregularmente convertidos ao gás, não tinha bujão que chegasse, assim, este foi mais um nicho de negócio que deixou fortuna para alguns. A vida estava boa e rica; que crise!?
É duro ver e viver um tempo assim é estranho, tudo parece ser e não é, ou melhor: é e não parece ser! Daí, certo dia numa tarde quente de lascar, tomando umas cervejas com um velho (velho mesmo) cacauicultor numa cabana na cascata em Pau Brasil, ouvi seu detalhado prognóstico. Disse apontando para a serra, que lá tinha mais de duas mil arrobas de cacau para colher e ninguém queria, perderá nos pés; todo esse povo, meu querido Xela, (falava e girava a mão em cima das garrafas) só quer saber de dançar e beber cachaça. Por fim arrematou dizendo que neste modelo maldito o dinheiro fica pasmado, esvaindo sem gerar riquezas.
Enquanto profundamente o panorama econômico mudava, superficialmente a sociedade se esfacelava num contexto onde tudo é falso. Dinheiro gerado pelo dinheiro não gera riqueza, só incha. O mecânico, a manicure, o sulanqueiro, o magarefe, todos conseguiram bens que de qualquer jeito teriam, pois isso foi fruto da universalização dos bens de consumo proporcionada pelo contexto mundial… até o carro! O bem maior que é o prazer de ouvir um piano, ou usar um relógio Patek Philippe, foi substituído por um gole de Corote. Quando a famigerada meação apareceu os espíritos congelaram, todos passaram a contentar-se com pouco! Em contrapartida ninguém quis arcar com os investimentos, e sim, os tratos culturais também se tornaram falsos. Como não existe solução para um mundo de faz de conta, também a feira da cidade sumiu! Só que a ciência econômica é implacável, logo (está perto) o peão sentirá o efeito de querer ter e não ter oportunidade de ter, isso pelo motivo simples do encolhimento do “denário” (apelido usado por Tonho Enrolado para o dinheiro). Neste patamar o desafio deixa de ser em como ganhar o dinheiro de quem escolhe obras de arte, para como tomar o dinheiro de quem bebe corote. The End…
Coronel Xela.
1- Drink feito com Campari, limoneto H2OH, um rodela de laranja e gelo.
2- Drink feito com vodka, refrigerante de laranja e gelo.
3- Comerciantes que vendiam roupas baratas, compradas na feira da sulanca em Santa Cruz do Capiberibe-PE.

Uma resposta
Através da leitura podemos voltar ao passado viver o presente e planejar o futuro. A leitura faz o homem ver o mundo e as coisas com outros olhos a educação tem o poder de melhorar a vida das pessoas e sua condição de vida é de fundamental importância incentivar as pessoas a ler.