Caros leitores,
Passou o carnaval esta festa profana e tão já desvirtuada que, meus amigos, os quais brincamos na pipoca, nos blocos e nos clubes, animadíssimos, sempre procurando aquela colombina (quantos casamentos ali nasceram!), quando questionados se estão curtindo a festividade em Salvador são enfáticos na negativa: “lá ele!”; outros mais ainda “você é doido, tô fora!”; alguns mais descontentes ainda, mandam vídeos da momesca festa que faz corar qualquer um que ainda lhe reste um fio de pudor. Coisas carnavalescas. Como o tempo presente é o único que existe, fico pensando em como os jovens curtem a festa… e deixo de pensar; nunca chego a uma conclusão… vou ler um livro.
Das poucas notícias boas que li neste período, a melhor foi um pequeno artigo do professor (escritor, antropólogo, historiador) Luiz Mott. Sempre inteligentíssimo, cultíssimo, de escrita agradabilíssima à leitura, ele faz uma pergunta incômoda aos dias atuais: “Mudou de cor com a velhice?” daí discerne elegantemente sobre “O que vale hoje é a narrativa carnavalizada, não a verdade histórica” e arremata com verve graciosamente polida “Se branca usar turbante foi considerado apropriação cultural indébita, branco pardalizado é também indébita apropriação racial”. Sou fã de carteirinha do professor Mott desde que ele começou a escrever no jornal A Tarde; hoje acompanho seus artigos pela internet; e li um livro o “Rosa Egipcíaca” por sinal, ótimo livro! É preciso muita cultura, muita personalidade, muita vida vivida para tratar, com leveza clareza e graça, os temas escolhidos por Mott; é um gigante. Falando num tema esdrúxulo vocês viram Luana Piovani no desfile? Que diabo foi aquilo? O príncipe, agora rei, Charles sambando com Pináh ao som da bateria da Beija-flor de Nilópolis, naquele 1978, no quesito “graça e samba no pé”, ganhou de mil!! Alta, esbelta, elegante, com um sambar gingado típico das passistas experientes, botou o príncipe para sambar e encantou! Quanto à outra é de rir, rapaz, olha, Luana estava possuída; eu não tinha coragem não, correria para longe para não falar-lhe que o senhor tempo levou suas carnes e sua graça, e deu-lhe gordura e flacidez; enfim, quem não compreende o tempo expõe-se ao ridículo. Assunta! Eu estava esquecendo a cena mais bizarra (porém reveladora) do carnaval, o prefeito do Rio de Janeiro imitando um cego; com bengala e óculos escuros como adereços! Talvez triste esta cena, é como muitos virão; eu notei com alegria, pois é exatamente assim que o prefeito enxerga todos os seus eleitores; também expõe seu caráter, além de vêr eleitores como cegos, assume que em terra de cegos quem tem um olho é rei. Vamos festejar! Viva o carnaval!
Passado é passado, passou os “permissivos” excessos chegamos à quaresma, tempo de penitência. Eu sou um ótimo cristão católico, fui à missa de cinzas, onde o padre orientou que neste tempo podemos fazer uma refeição completa até a saciedade; nas outras duas devemos fazer uma penitência, ou seja, se comemos dois pães no café da manhã, passemos a comer um; para ficarmos com aquela sensaçãozinha de querer mais; aquela fomezinha longe; uma privaçãozinha para lembrarmo-nos da existência de Deus e do quanto Ele nos possibilita ter. Basta crer. Pensei… pensei… como sou um glutão, o problema é grande! Eis que no finalzinho da tarde fui, tradicionalmente, tomar umas para limpar as idéias, e assunta só, não é que eu tive a certeza de que Deus é bom! Tive uma iluminação!! Vou passar o tempo da quaresma sem tomar os quebra-gelos; está resolvido. Só cerveja e de dez Reais pra trás (psiu, achei um boteco fuleiro que vende Brahma a oito contos e quinhentos) bem, minha penitência está estabelecida. Uma súbita paz tomou conta de mim, entrei em divagações e só acordei com o alarido do comandante Marviu descendo de sua enorme pick-up: “em combate meu coronel!”.
─ Que foi? Ai Jesus! Que cara de alegria é essa? Cadê a cachacinha? ─ Bradou o comandante enquanto arrumava o corpanzil na cadeira.
Excelente ouvinte, boa prosa, o comandante Marviu gostou da minha explanação acerca de minha penitência, balançava a cabeça afirmativamente e por duas vezes se benzeu; é cristão ortodoxo. Desceu a oitava cerveja quando comecei a falar da penitência de encher a barriga de cerveja e não poder “acender o fogo” com um quebra-gelo, as lágrimas brotaram e a pança do comandante começou a balançar
─ Por minha mãe Santa Olga de Kiev, também farei essa penitência. Coronel Xela você é um gênio! ─ disse Marviu aos prantos; e ergueu muito sem gosto o copinho de cerveja mirando o céu.
A ladainha do comandante se rogando praga por ter saído de casa para tomar umas e curar a ressaca do carnaval foi grande e longa, e logo encontrar-me! Era certo, só ele não viu que terminaria em tragédia. Idéia infeliz essa penitência de abstinência do quebra-gelo, mas, tinha jurado a Santa Olga. E estando nesta agonia veio à pergunta:
─ Será que Tonho Enrolado vai entrar nessa?
─ Para ele eu tenho outra proposta, pior ainda! ─ respondi enfaticamente.
Quase o comandante Marviu enfarta, arregalou os olhos e ajeitou-se na cadeira. Pediu a décima cerveja e conjecturou se podia misturar um tiquinho de Whisky na garrafa de cerveja, antes de botar no copo, dona Maria podia fazer lá dentro, no escondido, sem nós sabermos… lembrou de Nossa Senhora de Kazan e ficou muito triste, estava arrependido mas, cumpriria o trato.
─ Mas, ô Xela, qual a penitência de Tonho Enrolado? ─ Perguntou.
─ Próxima semana você trás ele que passarei a receita; você fica de testemunha. ─ Respondi.
Brindamos estarmos vivos, ao carnaval, a quaresma e a nossa pesada penitência; a pança entupida de cerveja!
Alex Terra.

Respostas de 2
Aproveita!! Mas a pança cheia de cerveja não purifica a alma.
Acredito que ainda resta alguma Rodouro, perfumando algum ambiente, em cima de alguma mesa no clube social de alguma cidade, lembrança dos velhos carnavais, de clubes, de rua… Que venha a penitência, a qual já viemos pagando! Parabéns Coronel Xela.