Caros leitores,
O mundo está em guerra e, como eu não nasci para guerrear nem tenho mais idade para o alistamento, estou velho, quem quiser é que vá! Eu nasci para espiar o mundo, ouvir Rita Lee cantar que “na hora H quando a bomba estourar quero ver da janela” e escrever “meio de contrabando, desviar de estilingue, deixar que me xinguem” publicando sempre na plenitude de um domingo. Cresci lendo na camisa dos mais velhos o slogan Faça amor, não faça guerra e, verdadeiramente, por um período achei que não haveria mais guerras, o ser humano estava civilizado demais até nos convenceram a andar desarmados; para quê armas se existem as leis para coibir os crimes e punir severamente quem os comete; viver neste mundo estava absurdamente gostoso. Entretanto a mente dum escritor, principalmente o cronista, é irrequietamente acelerada e claro que eu queria saber, desde a infância, como seria a próxima guerra. Lembro-me de um desenho animado de Tom e Jerry ainda assistido por mim em preto e branco, brigavam jogando bombas cada vez maiores, daí aparece Jerry num aviãozinho e joga uma bombinha bem pequenininha; Tom pega a bombinha, olha com desdém, dá uma risada sacana e… BUM!! Os dois vão parar na idade da pedra. Sem entrar no mérito da historinha o desenhista de Tom e Jerry foi um gênio.
Nunca comi muito lero não, principalmente após ouvir uma aula magna de um grande amigo padre e aviador militar, de que a bíblia sempre contém a verdade, e que se o final dos tempos chegasse alguns saberiam; haveria sinais: filho bateria em pai, etc… Daí como eu já via a vida da janela passei a reparar e assuntar. E assuntei graças ao costume, naquele 1970, das pessoas botarem o rádio na janela, a música Meu Bom José na bela e jovem voz da mesma Rita Lee; depois tocou no serviço de auto-falantes da cidade e fez muito sucesso. Parecia música de igreja, mas, a mensagem era mais um passo para a desconstrução da família; dizer que fulano era “um bom José” era uma forma de xingamento. Para as mulheres, depois de queimarem sutiãs, elas estavam adorando mais esse passo rumo ao desconhecido… . As festas de debutante desapareceram e ter uma aliança no dedo era ter um bambolê de otário. Como o mundo gira gaiato o efeito colateral entrou pela janela e em 1971 o rei cantou bonito, “Amada Amante” retratou com perfeição a transição do amor para os amores; deve ter sido bom ser adulto nesta época!
Claro que não tinha como dar certo e essa certeza eu só tive quando saí variado do teatro Castro Alves; era 1982 e tinha acabado de assistir a uma palestra de um filósofo francês, promovida pela Braskem; ele afirmou que a geração, os jovens, estava perdida; que não tinha o que fazer; que seria necessário esperar nascer outra geração. Fiquei horrorizado! Pensando em o que eu, logo EU, estava fazendo neste mundo; no azar da peste de ter nascido neste tempo! Eu janelando o tempo! O tempo rei. Ó tempo rei “ensinai-me, ó, Pai, o que eu ainda não sei” cantou Gilberto Gil naquele desconcertante 1984 num show na concha acústica do Teatro Castro Alves; neste show pela primeira vez vi pessoas usando drogas, abertamente; e compreendi o sentido de “geração perdida”: era o padecimento da indolência que grassavam os jovens. O mundo tinha capotado!
Surgiram quebra-molas monstruosos nas ruas, verdadeiras armadilhas de guerra que fazem um carro voar e matar algum passageiro. Apareceram as ciclovias nos lugares mais improváveis, até no corredor da Vitória em Salvador, só para a digníssima mãe de quem teve a infeliz idéia andar. Humanizaram os cães ao ponto de proibirem de soltar fogos na festa de São João, para não incomodar os “filhinhos”; nas fazendas os cães estão acabando com as criações de cabras e galinhas sem que o fazendeiro possa fazer nada; nas ruas os “filhinhos” abandonados, depois de terem saciado a nóia do “tutor”, mete medo e ataca crianças e idosos… mas, isso não é problema! São só crianças e idosos humanos que têm de serem desconstruídos. E eu olhando muitos filosofarem e convencerem outros a trocar o canudinho de plástico por um de papel, para salvar o planeta. E vendo outros muitos comerem alface orgânica só no domingo, viu, para salvar o planeta. E assuntando, na Europa, as hortaliças virem com prazo de validade impresso! É verdade os humanos não sabem ver se uma hortaliça está murcha, tem de olhar o prazo de validade. E eu triste, mas gostando, apreciando o desfilar das moçoilas que se atiram sem olhar se o carro vai parar, atravessando a faixa de pedestres; em que acreditam para tal ato? Quem implantou em seus cabeções tal falsa fé? Gosto do desfile e fico deliciosamente apreciando. Bizarramente assisti no Jornal Nacional, o herdeiro de um banco brasileiro, bradar sobre sua aventura de brincar de apagar fogueira de quintal no pantanal, e que isso era para salvar o planeta; com certeza ele compra coentro lendo o prazo de validade. Parece inacreditável, mas é verdade; pois da janela vi vizinho denunciar vizinho porque tocou fogo em três palhas de coqueiro, ia acabar com o mundo! Finalmente vi, da janela, cinquenta anos após as pessoas fazendo guerra e não fazendo amor! Discórdia total. Tanta discórdia que quase meus olhos saem da caixa, quando vi, estupefado, nas olimpíadas em Paris um homem quase matar uma mulher na porrada, sob os auspícios (o Barão de Coubertin revirou-se no túmulo) do comitê olímpico internacional.
Há um ramo da filosofia que diz que as guerras são purificadoras, lá eu não vou; quem deve ir, aliás já devia ter ido são esses que vivem preocupados em apagar fogo no pantanal; rapaz, na guerra tem cada incêndio da pôrra. Para quem quer salvar o planeta está na hora, vão pra guerra!

Uma resposta
Buenaço, vc está inticando c a guerra, e atucanando os guerreiros !