“A minha alma está armada
E apontada para cara do sossego,
Pois paz sem voz,
Não é paz é medo”
(O Rappa)
Da varanda do sítio continuo a meditar sobre memórias, pessoas, estórias, história, passado,
pais, irmãos, filhos, amigos, família, humanidade. Sons, cheiros, imagens, sentimentos,
emoções, ideias, projetos, coisas impalpáveis, que só daqui toco, vejo e sinto.
O isolamento sempre me favoreceu, embora o viva pouco. O busquei desde muito jovem, mas,
internamente, como desejo, sendo decidido apenas como fato, só na fase adulta da vida.
O conhecimento de nós mesmos vai se firmando no contato com saberes de tradições, modelos
éticos e mestres, escolhidos ou não.
Num dado momento da vida, depois de algumas experiências junto aos ideais escolhidos, para
quem teve esta oportunidade, pois em geral a vida escolhe o rumo da maioria, a visão do que
foi experimentado e sua validade para o amadurecimento espiritual é muito importante para
validarmos ou não nossas ações.
Embora seja espírita militante, desde muito jovem, travei batalhas em muitos campos da vida
comunitária. Sempre tive uma posição idealista, humanista, coletiva, por opção, sem busca de
vantagens de ordem pessoal, tentando ao máximo o anonimato, coisa difícil, atualmente.
Nestas décadas de atividades coletivas, desde o campo profissional, classista, na prática do
coletivo espírita, na academia de letras, em saúde coletiva, nas atividades da terapia
comunitária, na atividade partidária ou em saúde mental, sempre ouvi daqueles que não fazem,
mas esperam algo a mais dos que parecem estar a frente: “convoque outros para ampliar as
ações, nos chame que faremos juntos”, depois somem.
O tempo faz com que estes apelos se mostrem bravata temporária, que não duram enquanto
não houver vantagem pessoal. Da varanda do sitio o tempo passou e ficou claro quem tinha
compromisso ou não com as ações coletivas. O mesmo tempo me ensinou a não ocupar mais
nenhum segundo do meu tempo com os idealistas de muleta, que até a prática da caridade
buscam terceirizar.
Depois de algumas experiências de batalhas em campos distintos, chega a hora de selecionar
atividades, até pela dificuldade de acumular funções, especialmente pelo peso do tempo e por
escolha pessoal. Tive a sorte de jamais acolher para o intimo menções ou títulos de
reconhecimento, prática aprendida na Doutrina Espírita. Do que participei, em todas as ações
da vida, o fiz por desejo pessoal e com intuito de melhorar minha condição humana e a dos
outros. Meu ganho já foi esse.
Queridos pais, irmãos, filhos, esposa, família constituíram minha base para fazer ou não o que
me apareceu na vida. Escolhi quase todos os caminhos por onde percorri ou deixei de percorrer.
Amigos, confrades, colegas, companheiros de front, todos, os que comungaram com ideias
semelhantes ou não, me ajudaram a entender as minhas escolhas.
Alguns saíram cedo demais da minha vida, como meu querido pai. Outros, queridos
companheiros de enfrentamentos, humanistas, até mais jovens que eu, já retornaram a pátria
espiritual. Muitos parceiros de lutas, a maioria, continua na vida, mas não mais no front, por
opções pessoais ou levados pela correnteza do cotidiano.
Todas as experiências e lembranças fortalecem cada vez mais esta memoria afetiva de valer a
pena partilhar lutas, mesmo com a sensação de que os parceiros passam quando uma fase da
batalha encerra. Continuo nos fronts das lutas que acredito, sem a menor pretensão de ser
general ou líder. O que penso no momento é em ser mais seletivo quanto às lutas e as
companhias.
Daqui, da varanda do sítio da alma que construí, depois de tantas batalhas, avalio, conforme a
a canção que diz: “Qual a paz que não quero conservar para tentar ser feliz?”
Jacobina, dezembro de 2022
Cledson Marlos Pinheiro Sady
Membro da AJL, cadeira número 12.

Respostas de 3
Infelizmente,só conseguimos enxergar na maturidade.
Assim, também,eu sinto…
Estou mais seletivo, até mais egoísta por perceber que existem muitas pessoas que precisam de ajuda, mas poucas merecem!
Já busco mais nada, só paz e ficar ao lado de pessoas que fazem bem.
Que maravilha de escrita Coronel, tenho que ler novamente, além de óculos fraco devido aos modernos ocultistas oftmoligistas que frequento, volta e meia retornando às primeiras lentes indicados, você sabe que sou caipira “pira pora”. Abraço e até breve!
Dr Cledson por si mesmo. Muito bom.