Porteiro. Brasilidade Brasileira.

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Foto by Rose. Coisinhas que só existem no Brasil é um assunto que sempre me interessou; sou curioso. Verdades, lendas, coisas misteriosas, sincretismo, tudo que dizem que só acontece aqui, estou atento. Sem apego e usando somente a investigação filosófica vou garimpando estes diamantes; desta vez impliquei com o porteiro, afinal, de onde vem essa vontade de conviver com um porteiro? E de muitos ainda hoje exigirem um porteiro na portaria, apesar de toda a tecnologia disponível? Ora, considerando que porteiro não é segurança, coisa que nunca foi, pra que diabos serve senão para dar conta da vida dos condôminos.//Alex.//

                Caros leitores,

          Sempre fui fascinado pelas questiúnculas do fino tecido social; desde criança! Só ainda não consegui compreender que curiosidade da peste era essa, que me tolhia à brincadeira e me fazia brincar de observar; eu era uma criança diferente…

          Eu muito criança ainda, conheci em Salvador, talvez, o último porteiro em sua função específica; na profissão de porteiro. Era 1973 e fiquei, junto com meu pai, hospedado do hotel São Bento (hoje em ruínas); do hotel eu via o largo, a igreja e o convento de São Bento; e algo logo atiçou minha infinita curiosidade. No cantinho próximo a uma porta ao ladinho da igreja, um padre passava o dia todo sentado numa cadeira, sem nenhum conforto, só com um terço na mão. Só uma vez vi chegar alguém, ele levantou, foi ao portão e rapidamente dispensou a pessoa (era um pedinte); depois perguntei ao meu pai o que fazia aquele padre, com fina ironia ele disse: “passa o dia dormindo sentado, está com a barriga cheia”. Até que um dia estando o portão aberto, inventei que queria conhecer a igreja, daí fui disfarçando, como crianças disfarçam, e perguntei ao padre o que ele fazia: “sou o porteiro daqui” e me mandou brincar em outro lugar. Deu um nó em minha cabeça, um porteiro vestido de padre!

          Na escola onde eu estudava, minha primeira escola, não tinha porteiro; nem no Banco do Brasil… tinha segurança, porteiro, não; na empresa onde meu pai trabalhava também não tinha; nem na prefeitura; nem no hospital. Na casa de um colega de escola tinha porteiro, e eu o tinha por fuxiqueiro; passava o dia no portãozinho e dava conta da vida de todo mundo. Na minha segunda escola, já em Salvador, também não tinha porteiro, mas agora estávamos morando num edifício e aí tinha portaria e porteiro; e em todos os outros edifícios também era assim. Olhando o quotidiano entendi que um porteiro controlava a entrada e saída, não era segurança; isso num tempo em que ainda existiam os ascensoristas em prédios comerciais. Verdadeiramente era algo meio que sem função, sem lógica, o ser porteiro; assim fiquei meio perdido sem uma compreensão; e o tempo passou até que, eu fazendo o segundo grau (numa escola que tinha porteiro para carimbar a carteirinha na entrada) um professor, destes doutrinados, achou de dizer que porteiro em edifício residencial só existia no Brasil; que era coisa de esnobe; que era humilhação para o trabalhador. Êpa! A curiosidade aguçou, então é uma brasilidade!

─ Professor! Como surgiu esse costume, já que só existe aqui? Perguntei; eu não aguentava ficar calado.

Claro que ele não sabia, era só doutrinação; não respondeu e ainda deu uma aula de como os alunos não devem perguntar idiotices. O tempo me daria à resposta e sim, é uma brasilidade.

          Nunca desisti e com uma curiosidade incansável fui juntado pedacinhos de informações aqui e ali (naquele tempo sem Google); um dia descobri que Frei Jaboatão, uma sumidade no estudo da genealogia brasileira, acreditem, foi porteiro por dois anos no convento de Santo Antônio do Paraguaçu; como pode? E que Frei Bartolomeu de Gusmão, o inventor que inventou e voou no balão, estudou neste convento. Bem, aqui está a chave para entender se não o fato, quando nada o conceito. O encargo de porteiro era de grande relevância e prestígio nas escolas (eram conventos. Internatos!), era quem comunicava o mundo exterior aos internos; dava, recebia, e resolvia tudo que podia entrar e sair; um livro escrito recém-escrito só sairia para impressão passando pelo crivo do porteiro. E um livro absurdo que falasse das propriedades dos gases após o aquecimento, fundamental para os estudos do frei Gusmão, só entrou após a aprovação do porteiro. A vida espiritual, terrena e pessoal dos internos era protegida de todas as influências externas; ali eles estavam para estudar e SERVIR a Deus, ou como era dito em 1680 “é uma sementeira regada pelas mãos de Nossa Senhora”. Note só a complexidade, até a notícia da morte de um parente era criteriosamente analisada, e se fosse atrapalhar os estudos podia ser retardada; ou primeiramente haver uma preparação espiritual. Os internos eram blindados das influências externas.

          Estudar nestas escolas não era gratuito; e não era obrigatório se ordenar padre formava-se em Mestre em Artes, a teologia/liturgia católica era uma especialização feita (ou não) no último período antes da formatura. Entrava no colégio aos 15 anos e o ciclo de estudos duravam 15 anos, era a melhor parte da vida que era vivida neste ambiente, entonce, preferindo voltar para casa, o agora mestre em artes sentia terrivelmente a falta de um porteiro! Já pensou estar compondo uma música e alguém gritar no portão chamando! Quem chegava a Mestre em Artes eram os ricos herdeiros, que se habituaram a tranquilidade da clausura e jamais conseguiriam terminar os cálculos de partidas dobradas, essenciais a seus prósperos comércios, sendo a todos os momentos incomodados. A conta assim fecha: uma rica casa com um educado morador que tem necessidade de um porteiro. Sendo a irmã, ou esposa, educada num convento feminino estava estabelecida a residência dos sonhos!

          A população brasileira instruída, vendo, apreciando e não tendo recursos bastantes para tal mimo, criou a brasilidade dos porteiros em moradias coletivas… são os condomínios como conhecemos hoje! Que tem síndico, mas aí é história para outra vez.

                                 Alex Terra.

Por:

Respostas de 3

  1. Como vc bem falou , porteiro é uma figura bastante típica do Brasil . Quem mora em condomínios , ou apartamentos , acaba criando uma convivência próxima com esses profissionais , muitas vezes desenvolvendo até uma relação de amizade . Além de cuidar da segurança …..eles frequentemente ajudam no dia a dia dos condomínios , recebem e entregam encomendas , auxiliam com as compras e até dão um olhar atento com as crianças no playground . Por fim , o porteiro acaba sendo mais do que um funcionário , torna-se parte da rotina e da vida desta comunidade .

  2. “A felicidade está logo ali, atrás da porta, só que perdi a chave “. Khalil Gibran. Mas o porteiro do céu é São Pedro, aquele que fica com uma penca de chaves !!!

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