Entre o cacau e o casamento
Um rico e tradicional produtor de cacau, dos idos de 1980, projetava no filho a continuidade de sua jornada vitoriosa na cultura cacaueira. Respeitado em todo sul da Bahia, esperava que seu filho seguisse os mesmos passos, sem entender que tudo estava sendo dado sem o grande esforço feito por ele para construir todas as roças que deixaria de herança.
O filho, por sua vez, estudava, sem muito afinco, mas adorava as vantagens oferecidas pela cultura do cacau. Andava desde jovem de carro novo, vestia boas roupas e não tinha problema algum com dinheiro.
A questão era de diferença de olhar de mundo. Seu pai, trabalhador de sol a sol, disciplinado, rígido, não gostava de farra, de viagens ou de luxo, raramente indo a sede dos municípios da região. Praticamente vivia dentro das roças de cacau.
O jovem e futuro herdeiro do grande produtor, já enxergava o mundo por outro prisma: adorava uma farra, bebidas, mulheres e badalação, mas, quase não tinha oportunidades para mostrar seus talentos ao mundo.
Em certa ocasião, sabendo de viagem do pai para negociar a produção, trabalho para alguns dias, resolveu marcar uma festa na fazenda, chamando amigos e especialmente uma jovem de seu interesse para mostrar os dotes financeiros, pois os físicos não atraiam muito a moça.
A festa foi realizada na cada do administrador, evitando rastros da farra que foi programada para alguns dias, com churrasco, muita bebida e som a toda altura. Algumas galinhas e carneiros foram abatidos e preparados para a festança. Comprou um aparelho de som dos melhores e espalhou caixa de som por todo lugar. O administrador levou a família para a casa de outro funcionário da fazenda.
Passado um dia da farra, chegou inesperadamente o dono da propriedade, pois conseguira negociar bem a produção, voltando antes do tempo esperado. Entrou em casa com a esposa e ficou surpreso com o som vindo da casa do administrador. Comentou com a esposa:
– O rapaz comprou uma vitrola de primeira e está aproveitando minha ausência para fazer uma festa. Vou até lá, sem problema, pois se trata de bom funcionário. Vou dar meus parabéns, pois só pode ser aniversário dele ou da patroa.
Chegando na casa qual não foi a surpresa ao encontrar o filho com uma jovem no colo e um copo na mão, com claros sinais de embriaguez.
– O que é isso meu filho? Que tanta gente estranha é essa? Quem barulho terrível é esse?
– Papai, quero apresentar minha esposa. Essa é nossa festa de casamento.
– Você ficou louco? Que casamento que nada. Passe para casa agora.
– Não vou. Eu amo esta mulher e o casamento já está feito.
– Muito bem. Então pegue suas coisas e vá morar com ela longe da minha fazenda. Vá procurar seu emprego e sustentar sua mulher.
O rapaz, pegou suas roupas, conseguiu uma carona até a cidade e ficou uns dias numa pousada com o jovem esposa. A moça vendia roupas e sobrevivia disto. O jeito foi o rapaz ajudar também.
Passado algum tempo, especialmente o efeito do álcool, chegou à conclusão: não nascera para ser vendedor de roupas, não tinha muita disposição, tino comercial, gosto apurado nem persistência para seguir no ramo.
Voltou para casa do pai, pediu perdão, reconheceu o erro e pediu para morar numa das casas de funcionários da fazenda enquanto a mulher vendia roupas e sustentava a casa.
Veio em seguida a grave crise do cacau sem que o jovem tivesse aprendido nada da cultura ou comercialização do cacau. Chegaram as vacas magras e o futuro mantenedor da tradição de grande produtor não teve oportunidade de mostrar seu talento.
Mudou de ramo, conseguiu sobreviver com a venda de algumas propriedades, mas, vender roupas, não era a dele mesmo.
Cledson Sady
Membro da Academia Jacobinense de Letras
