Caros leitores,
Naquele 8 de novembro de 1822 um toque de corneta errado, dado pelo corneteiro Luís Lopes, mudou a guerra e deu a vitória aos baianos; este fato é incontestável tanto pelo que conta o povo, como pela prosa no livro de Ignácio Accioli de Cerqueira e Silva ou nos versos de Ladislau Santos Titara. Um testemunho interessantíssimo é contado pela neta do major Pedro Ribeiro, que lutou na grande guerra (como este dia de batalha ficou conhecido), a escritora Anna Ribeiro de Góes Bittencourt e diz: “Aquele som foi o sopro do furacão, dizia Pedro Ribeiro, partimos como loucos furiosos; todo o exército obedeceu ao mesmo impulso”. O resto é a história como a conhecemos; entretanto gostaria que você desse um passeio comigo pelos instantes anteriores ao toque do corneteiro.
Apesar dos atos de valentia e bravura o exército brasileiro não era páreo, os portugueses venceriam. Eram mais treinados, tinham mais soldados e muito mais armas; eram comandados por um general experimentado (no cerco de Burgos; nas batalhas dos Pirineus e de Toulouse), Inácio Luís Madeira de Melo, que também era bom político. Após cinco horas de batalha sob um sol escaldante e sabendo que os portugueses tinham recebido reforços, o experiente coronel José de Barros Falcão de Lacerda comandante das tropas brasileiras, zeloso em preservar seus soldados ordenou o recuo; mas, sem dar as costas para o inimigo, numa tentativa de ganhar uma posição de combate mais favorável; corria o risco de perder todo o batalhão. E ouviu-se o toque de avançar e degolar! A pergunta que me faço e convido você a fazer uma reflexão é: como Madeira de Melo ouviu o toque? Em que condições políticas ele estava no comando da tropa? Quais informações ele tinha do contexto e entorno da batalha? Eis a questão.
Como é fato sabemos que o exército português recuou e pouco importa se recuou organizadamente ou desestrambelhadamente; importa é a história que conta que o exército brasileiro não partiu em perseguição, ao que alguns historiadores creditam a falta de pólvora. Madeira de Melo trouxe suas tropas de volta a Salvador, mantendo a posição. Não ouviu Madeira de Melo um toque de política, ao invés de um toque de corneta? Politicamente a situação de Madeira de Melo não era das melhores, ademais, tendo lutado na guerra das laranjas (onde Portugal cedeu território, incluindo a vila de Olivença, em troca da paz) ele conhecia o modo de operar da diplomacia portuguesa. Vale ressaltar que nas duas guerras o rei era o mesmo, D. João VI. E fechando a tampa da panela de pressão, a briga não era com qualquer um, era entre pai e filho!
D. Pedro manda que Madeira de Melo saia de Salvador, e retorne em paz para Portugal; é desobedecido. Em resposta as vilas do recôncavo se revoltam e passam a criar dificuldades para o governo de Madeira de Melo. Na diplomacia, capitaneada por José Bonifácio e pela princesa Leopoldina, Inglaterra, França, Áustria e Estados Unidos ficam favoráveis ao Brasil. Em carta ao rei D. João VI, Madeira de Melo é claro: “… Dirá Vossa Magestade que este estado de coisas não pode durar, e que o Brasil, depois de se haver sublevado e proclamado sua independência, já não pode ser restituído ao seu antigo estado senão por meio de guerra…” entretanto a ordem para a guerra não veio! Enquanto isso a jovem marinha brasileira já sequestrava navios portugueses, deixando claro o domínio no mar. A situação política de Madeira de Melo é de equilíbrio na corda bamba, e piorando sua situação, há uma interessante anotação no diário de Maria Graham a respeito das tropas portuguesas “… mais parece que os marinheiros estão a pique de se amotinarem por falta de pagamento”. Pois é, Portugal não estava pagando aos seus soldados.
Mais fogo é botado embaixo da panela de pressão, assim em 7 de setembro de 1822, D. Pedro decreta oficialmente a independência e em 12 de outubro de 1822 (menos de trinta dias antes da batalha de Pirajá) ocorre a sua aclamação como imperador constitucional do Brasil. Madeira de Melo estava em situação delicadíssima, precisava de alguma forma forçar uma sinalização política, a briga entre pai e filho dentro do mesmo reino, para ele como general, tinha desfechos nada bons! E mais uma vez, Maria Graham, em seu diário deixa uma pista tratando esta batalha como uma “operação de reconhecimento”, feita por Madeira de Melo; será!?
Passada a batalha de Pirajá, em 9 de junho de 1823, o Barão de Itaboray solta a falsa informação de que Madeira de Melo foi preso em Salvador… a informação não foi desmentida; saberia o Barão de algo muito confidencial? É impossível saber. Entretanto em 3 de junho D. João VI costurou um novo gabinete em Portugal e incumbiu o Marquês de Palmela de enviar mensageiro ao Rio de Janeiro para “entregar uma carta que ele dirige ao seu augusto filho com ordem expressa, para fazer cessar o derramamento de sangue que resulta da guerra civil entre esses povos”. Finalmente em 20 de junho de 1823 Madeira de Melo escreve “… e definitivamente me deliberei em evacuar a cidade” (negrito por minha conta). Chegou em Lisboa em 16 de setembro, sendo preso na torre do forte de São Julião da Barra. Em janeiro de 1832 é publicada a reforma do General Madeira de Melo.
E assim, lembrando de como eu ouvia histórias contadas oralmente, digo: entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato, o Rei meu senhor mandou contar mais quatro!
Neste dois de julho de 2026,
Alex Terra.
