Caros leitores,
Este ano de 2026, provavelmente devido ao “el niño”, está um frio de lascar; principalmente as noites. Sem problemas gosto do frio e tiro de letra, aprecio a brisa gelada do fim de tarde afinal, ser boêmio é um estado de espírito, o peão já nasce boêmio, não basta querer; exige profissionalismo, cultura e olhos grandes para notar o mundo; sobretudo, não existe diploma de boêmio é o povo quem dá o mérito; ademais quem tenciona ou entabula em ser boêmio, o máximo que chega é ao grau de chato-Mor. Pensando profundamente nisso eu estava quando pedi um quebra gelo para aumentar a filosofia; um uísque bourbon. Daí já desejava um tira-gosto para harmonizar e!! eis que surge meu grande confrade, o comandante Marviu. Trazia garguelado um legítimo bourbon (imediatamente derramou meu uísque na sarjeta); na outra mão uma iguaria que há muito eu não apreciava: sardinha em lata acompanhada de vinagrete de cebola e pimentão cortado bem fininho; coisa para paladares experimentados. E delicadamente, cheio de palavras amabilíssimas, pediu pratos e convidou dona Ricoleta (a dona do boteco) para um brinde – a véia que só toma (e vende) uísque falso, aceitou de bom grado – servindo espalhafatosamente generosas doses.
Contava-me o comandante de suas preocupações com o rumo tomado pelos bares, cada vez mais fechados, mais distantes do cliente, sem aura para proporcionar ao cliente que nada mais tem a fazer, desfrutar de um gole filosófico. O atual contexto lembra muito – dizia ele− os bares que frequentava no Cazaquistão ( Marviu era comandante de navio no mar de Aral… mas, isso é história para outra vez.) só que piorado, pois aqui não tem as mulheres (com cara de triste saudades) cazaques.
− Meu coronel Xelinha, o mundo tá de acabar!
A combinação do tira-gosto estava muito boa, sabores fortes; é como os queijos envelhecidos (como o pecorino romano), quem não aquenta pede pra sair, ou morre de pressão alta! Daí eu fiquei rodando a paciência, botando a idéia para formatar a vida prática funcionando num moderníssimo boteco de shopping, muito bonito e estruturado, por sinal. Respira-se ar-condicionado e não se tem referência do horário nem do tempo, o que de pronto mata o gaiato relógio que gira a carcaça em vez dos ponteiros, onipresente nos bons botecos; qual mulher não recebeu a foto deste relógio mandada pelo marido ou namorado!? Acrescente que a música é comandada por um qualquer, ou por Alexa, daí é se conformar em sofrer ouvindo uma gritaria dos infernos e aceitar que é música… bem, se a temática do bar for futebol, só toca pagode; sendo de temática “dita chic” só toca instrumental ruim, e assim sucessivamente; pedindo para trocar a música bota uma pior; falta felling e um profissional para casar a qualidade dos clientes com a música. É como dizia um espirituoso amigo, carpinteiro de mão cheia, a vida está de amargar! E neste amargar embarcaram os garçons, que com orgulho perderam o viço da profissão, não mais servem; botam o pedido na mesa e tchau. Acabou o tempo do servir, do garçom amigo, do bate-papo entre um servir e outro, das dicas, das notícias de tudo até daquela velha namorada, que aparecia e perguntava se fulano ou sicrano tinha aparecido etc… bom tempo! Agora, miséria mesmo é se for garçonete, lascou! É aceitar ela botar (servir jamais, a mulher não mais pode servir um homem) o pedido na mesa com os olhos baixos, nem olhar pode; perguntar o nome, jamais; pedir uma sugestão já é assédio; estamos vivendo um mundo mais que estranho, é besta. Estando eu sozinho, neste caso, saio imediatamente. Vai que depois da quinta cerveja resolvo dizer “minha linda traz mais uma!” será o suficiente para eu acordar, numa ressaca da peste, no xilindró. Lembrei-me de Tonho Enrolado, certa feita, e contou com muita graça, ele tomava uma caipirosca, em Uberaba, onde vendera uns relógios; como o limão estava acido, fê-lo piscar um olho involuntariamente; pois, quando notou, tinha duas mulheres em outra mesa lhe olhando feio! Suou frio. Mas como malandro criado não perde a passada na dança ficou repetidamente piscando o olho e tremendo a mão; e pediu ao garçom mais guardanapo porque quando bebia começava a babar. Verdadeiramente, mundo besta serve para divertir o malandro; assunta só a matemática, vê se não é coisa do capeta; é pura filosofia botequiana, parece mentira, mas, tem uma mulherada por aí fazendo harmonização da perseguida (para o mundo que eu quero descer), para quê!!! Fato é que só está nascendo “bebê reborn” entonce, pelo amor de Deus, quem está apreciando tal obra de arte? Batendo o último prego no caixão tem uma homenzada, por aí, também fazendo harmonização na desgraça; coisa do demônio encarnado… lá ele!
Contam que o consumo de álcool diminuiu que a nova geração é mais saudável. Diminuiu pelo fato de os velhos e bons malandros, boêmios, estarem velhos e consequentemente morrendo, menos gente menos consumo. Quanto ao resto não é questão de saudável, é questão de saúde mental! Frequentar bares exige educação, integração social, sociabilidade, compartilhamento, empatia, desejo de interagir com alguém, amizade verdadeira, lealdade, mansidão, reconhecimento dos seus limites, respeito pelo outro, reconhecimento da individualidade de todos, capacidade de diálogo, respeito por opiniões, respeito pela pessoa e principalmente: saber que no bar todos são iguais; culturalmente iguais. Tudo isso são predicados muito complexos para uma geração egoísta, que, simplesmente, trocou o convívio livre e alegre, pelas sabedorias nascidas numa cabeça solitária dentro de um quarto.
Xela.

Uma resposta
Rapaz, comecei lendo sobre frio e bourbon e, quando percebi, já estava no Cazaquistão, harmonização de perseguida, bebê reborn… kkkkkkkkk uma verdadeira conversa de mesa de bar kkkkkk ninguém sabe onde começou, ninguém quer que termine e, no final, todo mundo sai pensando que o mundo realmente ficou mais besta… ou que precisa de outra dose de bourbon para entender melhor!
Parabéns Xela!!!